Jogando no Quintal - Campeão Mundial no Match de Impro em Bogotá!

O Jogando no Quintal acaba de voltar do XI Festival Ibero Americano de teatro de Bogotá, na Colômbia. Participaram mais de seiscentos atores e companhias dos cinco continentes, no maior festival de teatro do mundo. Como parte deste festival ocorreu um Campeonato Mundial de Match de Improvisação entre Argentina, Espanha, Colômbia e Brasil, este último representado por cinco atores do Jogando no Quintal.



O Brasil era o azarão do campeonato. Éramos disparado o time com menos experiência. Surpreendentemente vencemos a primeira partida, num jogo emocionante, digno de um Brasil x Argentina. Empate no tempo normal. E a vitória chegou apenas nos Pênaltis...

Em seguida perdemos para a favorita: a equipe Colombiana, dona da casa.



Chegou a hora de enfrentarmos a Espanha. Frio na barriga. Os europeus são bons em várias coisas e criar histórias é uma delas. Mas a raça e o carisma dos nossos jogadores falaram mais alto. Vitória do Brasil. Assim Argentina foi eliminada da primeira fase. Brasil, Espanha e Colômbia se enfrentariam mais uma vez.



Novamente perdemos da Colômbia e vencemos a Espanha, o que nos levou à grande final!!!

Já estávamos muito felizes de sermos vice-campeões. Éramos o time menos preparado, e nesta edição ninguém havia ganhado da Colômbia que, além de jogar em casa, ainda contava com um timaço. Seiscentas pessoas lotavam o teatro. O jogo começou empatado até o 3 a 3. Foi quando a Colômbia marcou 2 pontos e o primeiro tempo deu a lógica: Colômbia 5 X Brasil 3. Mas a grande surpresa viria no segundo tempo. O Brasil voltou com força total. Vontade, raça, técnica, palhaço, coração... Tudo entrou em campo... E não só empatamos como viramos o jogo, terminando num emocionante Brasil 8 X Colômbia 7 .É Campeão! Brasil-sil-sil !!! Nem a gente acreditava ! Somos campeões do mundo!




À Espera do Carro de Bombeiros

Às cinco e meia da manhã da terça-feira, vinte e cinco de março, desembarcamos no Aeroporto de Guarulhos, carregando malas, mochilas, a parafernália do Jogando no Quintal e mais uma jóia-rara: o troféu do Campeonato Mundial de Match de Improvisação Teatral, disputado entre as equipes do Brasil, Colômbia, Espanha e Argentina.

A cada meia hora nos lembrávamos de que éramos os campeões, como se voltássemos a uma realidade completamente improvável. Um sonho psicodélico, um prêmio de loteria.



O mais interessante de tudo era o contraste. Sabíamos que transbordávamos de orgulho como equipe ao mesmo tempo em que quase ninguém no Brasil estava a par disso. Afinal: o que é o Match? O que é um espetáculo de Impro? Como se joga entre países? Quem faz isso no Brasil?



Daí surgiram as piadas. César (Cizar Parker) dizia: - Cadê? Cadê o carro de bombeiros pra gente desfilar? Cadê o Lula? - Marcio (João Grandão) de tempos em tempos balbuciava - A gente ganhou... ‘cês tão ligados que a gente ganhou? – Allan (Chabilson) e Paolinha (Manela) apenas suspiravam pelos cantos e Marcão (Fonseca) dizia pra Rhena (Blanche): - Hoje tu volta de táxi, mina, que tu é campeã!

Não compartilhamos nem mesmo a esteira de bagagens, visto que todos os outros passageiros do nosso vôo estavam presos na fila da imigração. Era a felicidade mais transbordante e mais solitária que poderia existir naquele aeroporto.




Mas afinal: o que é o Match?

Existem ligas de Match espalhadas pelo mundo, que se encontram para disputar campeonatos regulamentados por normas reconhecidas internacionalmente.



Criado em 1977 por Robert Gravel e Yvon Leduc, no Canadá, com base nas investigações do mestre inglês Keith Johnstone, o Match de Improvisação tem adeptos em mais de vinte países.

O palco, inspirado em um jogo de Hóquei, é a pista de jogo e os atores são jogadores que se enfrentam em partidas controladas por um árbitro e seus dois bandeirinhas. O juiz pode apitar dezesseis tipos de faltas, que regulamentam o bom funcionamento das improvisações. Como no Jogando no Quintal, a platéia é a torcida e vota ao final de cada cena na equipe que mais lhe agradou, segundo seus próprios critérios. A principal diferença entre ambos os jogos é que o jogo de Match é realizado por atores enquanto que o Jogando no Quintal é um jogo de improvisação de palhaços.



Neste festival tivemos, portanto, a oportunidade de nos aprimorarmos em um jogo que, por ser conhecido mundialmente, possibilita que grupos de países distintos se encontrem, criem juntos e aprendam um com o outro.


O Frio na Barriga e a Bandeira do Brasil



Era impossível não passar um pouquinho mal antes de cada disputa no Campeonato de Match. Do outro lado da cortina sabíamos que havia uma arquibancada lotada por quatrocentas pessoas! Nas laterais do palco, grandes e vistosas, estendiam-se as bandeiras dos países que disputariam a partida naquele dia. Ao fundo, o placar eletrônico com o cronômetro que contaria meia hora para cada um dos dois tempos de jogo. Os apresentadores se revezavam a cada noite e tinham a grande missão de esquentar o público antes da partida começar. Com eles havia uma banda, posicionada atrás da pista de jogo, com seu repertório próprio e suas inserções improvisadas.

Aliás, o efeito psicológico que a música exercia sobre os jogadores era impressionante. A bateria estourando na abertura do espetáculo significava que a montanha russa tinha começado a andar pelos trilhos e que já não era mais possível descer! Agora era jogar ou jogar. E jogar para valer! Bonito - Futebol arte! - a gente dizia em roda - Vamos fazer futebol arte! - Então nos abraçávamos todos, intercalando as equipes. Por mais de um jogo dissemos para nossos companheiros e colegas adversários o que desejávamos para aquela partida. Até ouvirmos o apresentador lá na frente:



- Vamos a saludar el equipo de Brasil!!! – E a platéia urrava. Era hora de entrar.

Antes do início da partida as equipes cantavam seus hinos, compostos especialmente para o Match. O nosso começava com o Marcão berrando tal qual mestre de escola de samba: - Alô, meu povo, agora é sério! Alô, povo do Festival Ibero Americano de Teatro de Bogotá. A hora é essaaaaaaaaaa! - E a platéia respondia com gritos inflamados.

O árbitro pedia aos capitães que se cumprimentassem antes do início do jogo, ritual diplomático que acabava por se tornar um espetáculo à parte: o grupo Acción Impro, da Colômbia sempre presenteava a equipe adversária com café (que pra quem não sabe, é melhor que o nosso); A Impromadrid, da Espanha tinha um pequeno estoque de Cds de Camarón de la Isla, o expoente máximo do Flamenco na Espanha; A Liga Profesional de Improvisación, da Argentina, levava as camisetas de seu grupo, e o Brasil... bem, o Brasil, é claro, levava uma bandeja de caipirinha para brindar com a equipe adversária!

Se o início da partida era decretado aí, o espetáculo, por sua vez, já estava em alta efervescência. Agora era relaxar e se divertir.




O Festival Ibero Americano de Teatro de Bogotá.

Trata-se do maior festival de teatro do mundo. Em sua décima primeira edição o festival contou com a participação de mais de quarenta países. E na programação há teatro para todos os gostos: marionetes, teatro físico teatro de rua, circo, teatro infantil, improvisação, stand up comedy, dança contemporânea, comedia, tragédia... Tudo o que se pode imaginar e o que não se pode imaginar!

Há cartazes do Festival espalhados pela cidade inteira, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, em qualquer bairro, rua ou avenida. A cidade inteira se mobiliza para o evento, chove taxistas na porta de todos os teatros, sem contar que público colombiano é extremamente quente e generoso. Aliás, público definitivamente não é problema para o Festival de Bogotá. Se você vai assistir a um espetáculo do Peru às três horas da tarde, está lotado. Israel em plena quarta-feira às sete da noite... lotado! China... lotado! Bélgica... lotado! E não é difícil conseguir os ingressos se você prudentemente os compra ao início do festival. Ou seja: mesmo para quem não vai ao Festival a trabalho, vale a pena se programar para conhecê-lo.



O Match de Impro ocorreu num terreno conhecido no festival como Ciudad Teatro. Trata-se de um terreno que abriga mais ou menos uns dez galpões grandes, onde aconteciam diferentes tipos de espetáculos. Havia o galpão do Stand Up Comedy, o galpão do Teatro Infantil, o galpão do Mercado Persa (Feira de Artesanato Colombiano), e até mesmo o galpão da Lucha Libre (pode acreditar!), onde ocorriam disputas no melhor estilo Gigantes do Ringue! Ao centro havia duas grandes estruturas (humildemente chamadas de carpas), que abrigavam as bandas de reggae e salsa que tocavam ao longo de toda a madrugada . A Ciudad Teatro mais parecia uma quermesse ou um parque de diversões. Ao final da tarde havia tudo quanto era tipo de performer formando rodas de curiosos. E ainda pipoqueiros, algodoeiros, dezenas de estátuas vivas, barracas de comidinhas, etc. A Ciudad Teatro foi de fato um ponto de encontro incrível para todos os artistas que fizeram parte do festival.

A décima primeira edição de um festival de tão alto nível veio em boníssima hora. Como que para dizer ao mundo que a Colômbia é muito mas do que aquilo que lemos nos jornais. É um país incrível, que sabe preservar sua Memória e sua Cultura, além de receber a cultura dos outros países com respeito e generosidade. Ponto para Bogotá. E ponto para os paysas do Acción Impro, amigos queridos, mestres incríveis, responsáveis por esse impecável encontro de improvisadores. Muchas Gracias!

[home]