Setembro 2006

O Prêmio Para O Palhaço

Foi-se a última prova. Ponto no placar. O juiz decreta o final do jogo. Os palhaços atletas cumprimentam a platéia e se dirigem para trás da cortina para se prepararem para a premiação. O som não pára. O juiz apresenta a banda, a banda apresenta o juiz. A platéia aplaude, grita, assobia. Barulho e festa, loucura total. De repente, o juiz propõe uma reflexão: - Qual seria a o prêmio ideal para um palhaço?

Os dois times entram novamente em campo com os braços para trás, escondendo algo. Uma fileira de espectadores em pé aguarda no gramado. Os palhaços atletas sobem em banquinhos e, após contagem regressiva, recebem dos espectadores aquilo que traziam consigo. Uma medalha? Um troféu? Um distintivo? A pergunta permanece no ar: - Qual seria o prêmio ideal para um palhaço?

Que seja uma medalha: o que um palhaço poderia fazer com uma medalha ao final de um espetáculo? Uma provável resposta seria: ir embora vitorioso como todos os vitoriosos, com o sucesso pendurado em seu pescoço, o carro do ano, a aliança no dedo, a mulher esperando em casa, a família perfeita, o filho inteligente como o pai, a menina bonita como a mãe, o chefe na segunda-feira elogiando sua presença de espírito nas reuniões e todas as boas idéias que ele tem tido para fazer o negócio prosperar, o smoking pendurado para a festa, uma boa piada no happy hour, uma feliz resistência ao álcool, certa aversão à nicotina, brônquios perfeitos, pulmão de aço, coração batendo, a camisa engomada e um amor que não consome.

O problema é que uma medalha dessas, caros espectadores, seria tão pesada, mas tão pesada para um palhaço que, ao ser colocada em seu pescoço enterraria a sua cara no gramado como uma avestruz em perigo.

O que muita gente não sabe é que, por trás de uma simples brincadeira, existe um pensamento filosófico. A preocupação ideológica de não deixar cair por terra toda a incansável busca de se subverter o tradicional conceito de vencedor. No Jogando vencem os perdedores. E uma vez que todos nos propomos, com mais ou menos sucesso, a personificar essa figura do perdedor, do homem inadequado, de um ser que é amado por suas idiotices, por suas neuroses, por sua ingenuidade e por toda e qualquer coisa que cotidianamente tendemos a esconder, somos todos um pouco vencedores. Vencemos porque perdemos e sobrevivemos. Porque fomos amados apesar de.

A platéia ama, por exemplo, quando Cizar Parker diz me seguem (querendo dizer me sigam) e literalmente é cegado por Chabilson, que prontamente lhe tapa os olhos. A platéia ama quando Olímpio erra o abecedário e é expulso do jogo pelos seus parceiros de time. A platéia ama quando Manjericão, tendo que improvisar sob o tema pneu, levanta a camiseta e exibe os seus pneuzinhos, mostrando à platéia que está fora de forma. A platéia ama vaiar o juiz Adão quando ele, se esquecendo de que a prova ainda não foi realizada por um dos times, pede a votação antecipadamente. Quando um dos palhaços é obrigado a interpretar um papel que não é o que ele desejava para si. Quando alguém bate à porta e a banda realiza o efeito sonoro correspondente com alguns segundos de atraso. Quando um palhaço é obrigado a discorrer sobre um tema que não fazemos a menor idéia do que significa. Quando João Grandão exibe o seu corpo esquelético como se fosse um sex-simbol, e tantos outros exemplos.

Premiar um perdedor é dar-lhe uma trégua. É dar carta branca à sua humanidade. É mostrar que sim, que somos todos perdedores (às vezes hoje, às vezes amanhã). Premiar vencedores e perdedores, como é o caso do Jogando no Quintal, é mostrar que, na verdade, ganhar ou perder não faz a menor diferença, uma vez que ninguém pode obter sucesso o tempo todo. Que para haver ganhadores são necessários os perdedores e vice-versa. E finalmente o nosso tão esperado prêmio: uma torta na cara. Para que, se o conceito de um ou de outro (perdedor e vencedor) não estiver bem claro, pelo menos o próprio prêmio dirá: a ti, atleta, será conferido com solenidade o teu ultimo instante de humilhação para que não te esqueças de que teu lugar é na merda. E não estaremos todos na merda?



Em um dia de setembro o juiz Adão disse à sua platéia em um ambiente empresarial: os vencedores deveriam aprender a voar com os pássaros. Quando você ganhar uma medalha, não a guarde somente para si. Divida-a com os amigos. Deixe sua medalha na casa de um por uns tempos, depois a empreste a outro, para que todos possam usufruí-la um pouquinho.

A platéia ainda verá este ritual sofrer mutações, como já sofreu tantas vezes. Já optamos por premiarmos somente os vencedores com a tortada. Já optamos pelos perdedores premiarem os vencedores, já optamos pela platéia premiar todos. O formato muda pela própria subjetividade da proposta. E discutimos bastante a respeito disto em sala, sobretudo de julho para cá, após o I Campeonato Jogando no Quintal de Improvisação Teatral (vejam Diário de Bordo de julho). Mas seja qual for o formato ideal para a premiação, talvez o palhaço Adão tenha conseguido, com suas palavras, sintetizar o que idealizamos: um sucesso que liberta e que pode ser compartilhado. Eis a premiação para o palhaço.




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