Outubro 2006

Escuta de Bicho

Termo recorrente em nossos encontros com Juliana Jardim, nossa orientadora desde o início de 2006, escuta de bicho é o nome que a gente tem dado para aquela sensibilidade mais sutil da pele, que só se dá quando conquistamos o silêncio e a calma interna, fundamental ao trabalho de qualquer improvisador.

No Jogando no Quintal alguns exercícios realizados em sala nos auxiliam no treinamento deste tipo de escuta. Esses exercícios servem também como uma maneira interessante de diagnosticar o estado geral do grupo naquele dia, como meio de aprimoramento de nosso trabalho e também como uma possibilidade de preparação, para nos aquietarmos antes do espetáculo.

Há dois exercícios que foram realizados com freqüência pelo grupo no primeiro semestre e revistos em sala no final de outubro: o primeiro é o Dar e Tomar e o segundo, de formato diferente e princípios similares, chamamos de Escuta com Àrbitros.

Tanto o Escuta com Árbitros como o exercício do Dar e Tomar são extremamente simples em suas propostas, porém altamente complexos, seja por aquilo que encerram subliminarmente, seja pela alta dificuldade de execução. A seguir transcrevemos aqui os dois exercícios, para que o leitor se sirva deles como melhor lhe convir.

Exercício de DAR e TOMAR (a cena)

Exercício coletivo de Viola Spolin, consiste em deter o foco em uma única pessoa, que realiza uma série de movimentos e/ou ações até o momento em que outra pessoa comece a se movimentar. Nesse momento, a pessoa que estava executando a ação deve se deixar interromper. Não se trata, porém, do ator congelar a cena que estava realizando e sim de dar a cena para o outro, deixando claro para si, e para os outros, quem conduz a ação naquele momento.

Aparentemente o exercício é banal. Mas num certo nível de aprimoramento as cenas podem ser dadas e tomadas em frações de segundo, sem atropelamentos.

Uma curiosidade do exercício é que, depois de uma certa prática, é possível escutar o que a cena pede no momento ou a quem deve estar submetida a condução da mesma.

Há também algumas particularidades neste exercício, princípios a serem seguidos para que ele seja bem sucedido: é preciso driblar a ansiedade de tomar a cena para si e deixar que cada cena se esgote naturalmente. O mesmo que entrar em cena em um espetáculo de improvisação. É necessário deixar que a cena chame, que as necessidades surjam naturalmente, sem imposições.

Após um tempo, movimentos aleatórios se transformam em ações. No coletivo, pela necessidade de construção de uma cena, ou acabamos por atribuir significados àquilo que se iniciou como um motor físico ou o movimento é justificado pela ação de outro colega.
Dar e tomar é uma radiografia do que fazemos (ou tentamos fazer) no Jogando no Quintal.

Exercício de Escuta com Árbitros

Este exercício é realizado nos treinamentos de Juliana Jardim e conhecido por todos aqueles que já participaram de algum estágio com Sotigui Kouyaté, griot e ator africano conhecido no Brasil por suas diversas participações nas montagens de Peter Brook.

Todos caminham pelo espaço em trajetórias diferentes e percursos aleatórios, desviando uns dos outros, buscando estar juntos, ser um coletivo. Alguém pára, e assim permanece. Um segundo pára, um terceiro, um quarto, até que todo o grupo tenha parado. A regra essencial é: não parar ao mesmo tempo em que outra pessoa o faz. Cada um deve saber o seu momento de parar, que não deve coincidir com a iniciativa de nenhuma outra pessoa.

Num grupo pequeno isso pode parecer fácil. Mas a partir de dez pessoas, a execução do exercício se torna um pouco mais complicada. Se duas pessoas param ao mesmo tempo, todos retomam a caminhada e o exercício deve voltar à estaca zero.

Para que essas coincidências sejam devidamente observadas faz-se necessário a presença de árbitros fora da caminhada, que se exercitam apenas pela observação dos demais. O número de árbitros dependerá do número de participantes. É claro que, quanto mais árbitros o grupo tiver para observarem o exercício, maior o seu grau de dificuldade e portanto, maior o rigor com a escuta sutil do grupo.

Quando todo o grupo consegue parar, o exercício continua ao contrário: um indivíduo inicia a caminhada, seguido de outro, depois outro e mais outro, até que todos estejam caminhando novamente. A regra neste caso é a mesma: não se pode iniciar a caminhada junto com quem quer que seja. É preciso perceber, em escuta sensível e aprimorada, o exato momento de recomeçar a caminhada.

Para complicar o que já é complicado, existe a alternativa do mesmo exercício realizado em duplas: duas pessoas param a caminhada ao mesmo tempo. Depois mais duas. Depois outras duas, até que todo o grupo tenha parado. E recomeçam a caminhada, também em duplas.

As duplas em nenhuma hipótese devem ser pré-estabelecidas. Nenhum tipo de sinal ou de expressão facial devem ser usados como meio de fazer algum colega perceber que vamos parar. As duplas deverão surgir naturalmente por uma escuta sutil e muito profunda de si e de todo o conjunto. Como se o momento de parar fosse único e algo em nosso corpo nos indicasse quando ele chega.

Às vezes retomamos este exercício nos aquecimentos do espetáculo. Nos espalhamos por todo o espaço e caminhamos pelo gramado e arquibancadas. Somos nossos próprios árbitros. Em busca de uma tranqüilidade, também de bicho, nos preparamos para o que está por vir.


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