Novembro 2006

O I Festival Jogando no Quintal de Improvisação Teatral - edição latino-americana.

Nosso convidados, os argentinos da Liga Profesional de Improvisación (LPI) e os colombianos do Accion Impro, chegaram na véspera de nossa apresentação mensal e, com poucas horas para descanso, foram direto para a Sala Crisantempo onde ocorreria a maior parte do festival. Os colombianos, vindos do Rio, já tinham provado a caipirinha, as rodas de samba e um pouco do humor brasileiro no espetáculo Z.E.- Zenas Emprovisadas. Já a galera portenha teve que driblar um cansaço fenomenal para conhecer o tal bando de palhaços brasileiros do Xogando no Quintal e começar a trabalhar. No hall da Sala Crisantempo, um lanchinho cuidadosamente preparado, enquanto fazíamos o reconhecimento:
- Você é da...?
- Colômbia. Gustavo.
- Prazer.



À primeira vista o festival era de cabelos: curtos, compridos, coloridos, moicanos e alguns que pareciam cortados a tesourinha de unha cega. Uns com cara de índio, os olhos levemente puxados, outros meio hippies, uma misturança de tipos interessantes, rostos bonitos e muito vivos, daquele jeito à flor da pele que a gente fica quando viaja para um mundo desconhecido.

A apresentação foi oficializada numa grande roda estilo-CISV. Cada um se apresentando e dizendo o nome de seu país, inclusive a gente. Catalina distribuiu presentes típicos da Colômbia: grãos de café com chocolate, bolsas de palha e outras coisinhas, em nome de todos os seus companheiros do Acción Impro. Havia um mascote argentino: Theo, filho de Ricardo e Stella, da LPI, que ao centro e completamente alheio à conversa aprimorava seus primeiros passos. Já dava pra sentir que algo muito interessante estava por vir.

Vivendo e aprendendo a treinar

Considerando que todos esses atores, uns vinte e cinco contando conosco, participariam do Jogando no Quintal de novembro e que nós participaríamos do Match de Improvisação, dirigido por Ricardo Berehns, da Argentina, este foi o nosso primeiro aniversário em que houve uma troca de espetáculos. Ensinamos nossos convidados a jogarem no quintal e nossos convidados nos ensinaram a jogar o Match de Improvisação.


A experiência relatada neste diário, somada ao que vivemos com o I Campeonato... ocorrido em julho, e aos aniversários anteriores do Jogando no Quintal, fez com que pudéssemos aprimorar a maneira como preparamos nossos convidados para o jogo. Aprendemos a treinar e aprendemos a ensinar aos outros a nossa brincadeira.


A preparação começou com o nosso DVD. Por meio de gravações pudemos mostrar um pouco do clima do espetáculo, do espírito do jogo e da estética do Jogando no Quintal.

A gravação foi seguida de massagens em trio, para relaxar os viajantes mais cansados e baixar a ansiedade geral, e de diversos jogos cuidadosamente conduzidos por Márcio Ballas. Mostramos as modalidades de jogo realizadas no espetáculo, fazendo com que todos experimentassem os dez segundos, o jogo dos objetos, a narração/execução, etc. Pudemos antever os jogos que seriam prejudicados pela diferença de idiomas. Conhecemos também, um pouco do estilo de cada jogador, o humor e os recursos de cada grupo. E eles, um pouco mais sobre os palhaços do Jogando e o que estava por vir.


Jogando em Portunhol

Jogar em portunhol é algo como um futebol-arte num ambiente de pelada. Arrisca-se os mais belos dribles entre poças de lama. Mas é futebol de primeira. Assim jogamos. Havia algo de precário no ar, mas as partidas eram as mais emocionantes.

Para Cizar Parker falar espanhol era colocar "lo" ou "la" antes de cada palavra: onde está "lo" dinheiro, vamos pegar "lo" elevador. E assim ele se fazia entender. E como traduzir os temas para os convidados? Mortadela, por exemplo: - Um Jamón! Um Jamón de quinta categoria! - explicou o juiz Adão na partida de sexta-feira.

Os próprios convidados aos poucos foram percebendo que o bacana era boicotar o juiz. Fazendo o gênero "gringo-bobão", o argentino Javier fingiu não entender a tradução de pipoca: Ah, si, si, pelota! - e piscou em conchavo com a platéia, que riu com a tentativa do juiz de explicar novamente.

Blanche, Olímpio e Manjericão, o único time de todas as formações do final de semana a jogar sem convidados estrangeiros, também soltavam um portunhol a cada vez que entravam em campo. - Por que vocês estão falando assim? - perguntou o juiz João Grandão. Parecia que não tinham se dado conta de que falavam outra língua, influenciados pelo dialeto geral.

Soluções criativas para não ficar de fora alguém que nada entendia eram as mais bem-vindas. Rubra contou uma estória, Adão continuou e Ricardo, da Colômbia, arrematou com retiscências -sua única alternativa para algo que não lhe fazia o menor sentido. Punto, punto, punto, dizia feliz da vida. E a cada vez que repetia, a platéia se divertia.

Temas como Brasil x Argentina, Pelé é melhor que Maradona, Copa do Mundo, foram inevitáveis. Quase cansaram. Ainda bem que os times eram mistos. Mas, mistos ou não, de uma coisa podem ter certeza todos aqueles que não estiveram no Estádio da Lapa em novembro: foram partidas antológicas que ficarão para a história do Jogando no Quintal.

Acabou nosso carnaval...

Gisela Moreau, dona do espaço Crisantempo e nossa parceira neste festival, como se não bastasse tudo aquilo que, com sua simpatia e boa vontade, ela tornou possível, foi quem cuidou carinhosamente da nossa despedida. No domingo à noite, após a apresentação do Match fomos recebidos com um jantar delicioso em sua casa, em Alto de Pinheiros, onde pudemos reunir todo mundo que fez parte dessa semana tão especial.

O que começou com uma comida baiana maravilhosa e vinhos de primeira, terminou em choro seguido do mais profundo vazio. Em dez dias rimos, choramos, cantamos, dançamos, nos apaixonamos e começamos uma amizade pura e verdadeira. A manhã foi chegando e com ela o momento de levar parte da turma ao aeroporto. Se pudéssemos, começaríamos tudo de novo. Do mesmo jeito. Cem dias em dez.


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