Maio 2006

De fato não há como ensaiarmos as cenas que apresentamos no Jogando no Quintal. Mas acredite: um bom espetáculo de improvisação para nós é resultado de um bom aquecimento e, sobretudo, de um bom treinamento.

De tempos em tempos, de acordo com as necessidades da companhia, convidamos profissionais que admiramos (palhaços, improvisadores, bailarinos,etc) para desenvolverem este treinamento conosco. Desde Janeiro deste ano o grupo trabalha com a atriz e diretora teatral Juliana Jardim, que acabou se tornando, pela enorme empatia existente entre a nossa linha de trabalho e a dela, uma espécie de orientadora do grupo.

Juliana dialoga com a tradição do griot, do oeste africano, região onde esteve em 2003, a convite do ator e griot Sotigui Kouyaté, integrante do centro teatral dirigido por Peter Brook. O griot  em determinadas etnias é o orador da tribo,  figura responsável pela memória da comunidade e pela preservação da história de seus antepassados. Em sua pesquisa de doutorado A palavra com vida, desenvolve um treinamento teórico-prático para atores, estabelecendo relações entre a palavra e a cena.

Durante todo o mês de abril o treinamento com Juliana foi pautado na estória da Chapeuzinho Vermelho.  Este conto dos Irmãos Grimm, na realidade, tornou-se um mero pretexto para nos debruçarmos sobre questões profundas da narrativa teatral. Uma delas foi a questão do ponto de vista ou sob  o olhar de qual personagem a estória é contada. A partir deste trabalho, a fábula universal multiplicou-se em muitas versões: criamos a versão da Chapeuzinho, a versão do Lobo Mau, a versão da avó e até mesmo a estória narrada sob a ótica do sapato da Chapeuzinho. Outro trabalho interessante que realizamos em sala foi o desenvolvimento de uma narrativa em formato de radionovela: a estória, contada num determinado ponto de vista, foi ainda submetida à narração do apresentador do programa, entradas de jingles e efeitos sonoros bastante curiosos.

E foi no Jogando no Quintal de abril, no auge desse trabalho, que  recebemos o mesmo tema de uma das crianças da platéia. Uma coincidência que fez a gente estremecer no gramado e  Juliana Jardim estremecer na arquibancada! Pois não é que de milhares e milhares de possíveis temas, inclusive do universo infantil, o menino nos sugere de bandeja Chapeuzinho Vermelho? O elenco, para não cair no risco de apresentar uma cena já trabalhada, acabou por subverter completamente a estória, de maneira que o conto, que todo mundo conhece tão bem, praticamente se transformou em outra coisa! Coisa de palhaço.

Pois é...No Jogando no Quintal  tudo é improvisado. Mas parece que nada é por acaso.





Outro caso inesperado, mas nada por acaso

No espetáculo de maio aconteceu algo muito curioso – quem esteve lá no sábado certamente vai se lembrar: no momento da escolha dos capitães, logo no início do espetáculo, a Rubra elegeu como capitão do time Laranja um argentino que estava sentado numa cadeira do centro, bem à frente. Diz ela que não sabia quem era o sujeito, que ela só o escolheu porque ele era todo careca, sorridente, com uma cara interessante. Pois então: o homem era, nada mais, nada menos do que Ricardo Behrens da Liga de Improvisação Argentina e que veio à São Paulo só pra dar um workshop pra gente que começaria na semana seguinte!

João Grandão, o nosso árbitro do dia, no entanto, sabia muito bem quem era aquele torcedor. Num suposto empate ou na falsa incapacidade de decidir o time vencedor de uma das rodadas, o juiz resolveu escalar os capitães de cada equipe para disputarem o ponto.

Foi aí que o mestre argentino mostrou o que sabia. Sob o tema Chapeuzinho Vermelho (Calma! Dessa vez não foi coincidência, a sugestão foi do próprio juiz.) Ricardo realizou fisicamente toda a estória clássica, com direito a lobo, vovózinha, lenhador e tudo mais. A platéia foi ao delírio e o time Laranja, naturalmente, ganhou o ponto. Só então, em cena, é que ficamos sabendo que ele era O CARA!
Com Ricardo trabalhamos outras questões importantes da Improvisação Teatral como: as relações de status entre os personagens (possíveis hierarquias ou relações de poder), o protagonismo em cena, exercícios de associação livre, estórias compartilhadas (momentos de avançar e momentos de detalhar a narrativa), a negação do jogo ou que chamamos de bloqueio (momentos onde a improvisação não acontece por falta de escuta ou sintonia entre os jogadores). Enfim: aspectos que nos fizeram sonhar com a possibilidade de um clássico

Brasil X Argentina, só de improvisação. Quem sabe, ahn? Aguardem !!!


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