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Junho 2006 Com amor e com (a nossa) verdade Junho é um mês que consideramos difícil para descrever as atividades em sala do Jogando no Quintal porque foi um mês de especulações filosóficas e, sobretudo, de muita conversa íntima. Falamos coisas importantes um para o outro. Coisas bonitas mas que nem sempre são fáceis de se escutar.
Conversamos muito sobre o ator improvisador, o palhaço improvisador, as últimas cenas que construímos, nossas angústias e inquietações. Também batemos um longo papo com o diretor teatral Antônio Januzelli, o Janô, professor da Escola de Artes Dramáticas (EAD), que convidamos para assistir ao espetáculo de junho e dividir conosco suas impressões. Portanto, tomados por uma atmosfera de pensamentos e reflexões, pedimos ao leitor de nosso Diário de Bordo a permissão para entrarmos em assuntos mais subjetivos. A primeira pergunta que jogamos aqui é... Se não fôssemos palhaços, como seria o Jogando no Quintal? A resposta é simples: não seria. Jogando no Quintal é um jogo de improvisação de palhaços e a maneira como ele se realiza acaba por definir o que ele é. Quando o palhaço improvisa uma coisa há que ficar clara: a opinião do mesmo sobre o que ele faz. O palhaço comenta, e não necessariamente em palavras, as alegrias e dificuldades de fazer uma cena, de criar um problema, de resolvê-lo, ou de representar determinado papel. Dizemos, portanto, apesar da palavra jogo definir a proposta de encenação do Jogando no Quintal, que o espetáculo, antes de ser um jogo, é uma brincadeira de palhaços. Podemos ver a palhaça Manela brincando de ser um pingüim e ao mesmo tempo enxergamos um pingüim pelos olhos da Manela. É claro que a brincadeira do palhaço é a brincadeira do indivíduo que o vive, afinal, não se trata de um processo esquizofrênico. A diferença, porém, entre o ator que brinca e o palhaço que brinca está neste como brincar que acaba por definir a brincadeira em si. Quando a platéia sabe o que se passa no interior de um palhaço, ela passa a ver a cena sob aquele olhar e a resolver a cena junto com ele. Podemos dizer nesse caso, que o palhaço emprestou ao espectador os seus olhos. E quando dá tudo errado? Vejamos: o ator entra em cena para improvisar e, sem querer, atrapalha o andamento da cena, bloqueia o curso do jogo ou nega a proposta do colega, de maneira que a cena se perde. Revelar neste caso a sua dificuldade, quando ele o percebe, é a sua chance de redenção. Sua última oportunidade de transformar o seu fracasso em algo minimamente interessante. Ele pode voltar para o banco como um improvisador frustrado com o que fez ou como um palhaço que revela o seu estrago e dá o seu parecer. Acreditamos ser muito mais interessante a segunda opção, que só depende do grau de generosidade do ator para, novamente, emprestar à platéia os seus olhos. Comentar o que se está vivendo pressupõe uma relação que não se dá nos limites da cena. Quando se comenta, se comenta algo a alguém. Trata-se de um conluio com uma testemunha ocular. Essa testemunha pode ser a platéia ou qualquer pessoa que esteja circunstancialmente na situação de espectador. Isso mantém o ator atado ao tempo presente. O personagem que ele representa pode ser passível de existência em outra época e espaço, como por exemplo, um astronauta numa nave em 3001, mas o ator sabe e faz questão de mostrar que não se esquece por nem um momento do seu aqui e do seu agora, o que também o faz palhaço. Quando essa entrega é legítima, ele passa a ser mais do que um acordo de cavalheiros de palco e platéia, ela passa a se constituir numa cumplicidade real. Já não existe mais erro nem acerto, visto que errar ou acertar significa apenas chegar a algum lugar quando o mais importante de tudo é o caminho. Assim nos vemos hoje no Jogando no Quintal e assim se faz o nosso trabalho. Não sabemos onde vamos chegar. Parafraseando Mahatma Gandhi, terrivelmente representado pelo palhaço Cizar Parker no espetáculo de abril (mas isso a gente não pode dizer pra ele, porque até hoje ele acha que arrasou!): Não existe caminho para a paz. A paz é o caminho. |