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Dezembro 2006 Anjos do Picadeiro Em dezembro o Jogando no Quintal participou da quinta edição de Anjos do Picadeiro, um encontro internacional de palhaços promovido pelo grupo Teatro de Anônimo do Rio de Janeiro. Anjos do Picadeiro é uma verdadeira Babel dos palhaços, um lugar para assistir e ser assistido, trocar informações, ouvir críticas e ver o que é que a classe palhacesca anda produzindo no Brasil e no mundo. Como todo grande festival, tem muita coisa boa e muita coisa ruim. O saldo, porém, só poderia ser positivo, afinal, não é sempre que a gente pode, numa mesma semana, entrevistar Chacovachi, almoçar com Leris Colombaioni, bater um papo informal com Ângela de Castro, escutar as histórias de Sotigui Kouyaté, beber com os amigos do Anônimo e rever o trabalho do Lume. Haja coração pra tudo isso! Desde o início da semana a expectativa dos participantes do encontro em relação ao Jogando no Quintal era bem grande. Fomos escolhidos para o encerramento do festival, no domingo à noite - uma espécie de privilégio de grego. Se por um lado o horário era super nobre e nos foi cedido um espaço com capacidade para oitocentas pessoas com promessas de lotação, por outro, a platéia já tinha passado por um dia inteiro de apresentações e nosso espetáculo era o quadragésimo do dia (força de expressão, é claro)! Para se ter uma idéia, o Jogando estava dentro de uma programação chamada overdoze, que significava doze horas ininterruptas de números e espetáculos dos mais variados acontecendo simultaneamente.Como cativar um público cansado e com a cabeça transbordando de informações num espetáculo relativamente longo? Eis a questão! O árbitro João Grandão foi quem apitou o jogo, que foi embalado pela música de Rubra e Manjericão e disputado por Manela, Blanche, Adão e Olímpio no time azul, e Emily, Cizar Parker, Fonseca e Olímpio no time laranja. Uma boa energia, bons dez segundos, histórias razoáveis, um bom aquecimento de platéia e muito-muito-muito frio na barriga. Assim fomos anjos do picadeiro alheio. Voamos sem perceber e a platéia voou junto. Quando a gente viu...acabou! E acabou o festival...com muita latinha de cerveja, moçada bêbada dançando ciranda, uma banda de metais muito louca chamada Songorocossongo (quem não conhece PRECISA conhecer) e o início de uma segunda feira de cinzas despontando nas calçadas imundas da Lapa. O que fica e o que ficou... O que ficou foram as perguntas. Ou, mais do que isso, as perguntas sobre as perguntas: - Quais são as questões realmente relevantes para discutirmos o nosso ofício hoje? - Estaremos ainda em fase de definir o que é e pra que serve um palhaço? - Entretenimento e reflexão são excludentes? Há alguma diferença? Existe uma ordem de importância? - Não caberia ao artista, e somente a ele, se definir? - Estabelecer a função da arte não seria uma afronta à sua liberdade? Grotowski já diria: o que é bom é o que funciona. Se você se propõe a fazer café, que faça um bom café! E assim, jogadores de quintal, vamos tocando. Fazendo o nosso próprio cafezinho. Hora na máquina, hora no fogão, no coador de pano, depois no papel... com leite, puro, curto ou carioca. E quando a gente pensa que já provou tudo, eis que somos revisitados por uma emoção diante do palhaço mais singelo e tradicionalista do festival: o mexicano Aziz Guaal - sapato grande, peruca e maquiagem carregada, tropeçando em escadas e chutando baldes ; da beleza do depoimento pessoal dos Doutores da Alegria em seu Inventário, com o qual é impossível não se comover; da graça patética (e desmascarada) de Hilary Chaplain ou de uma simples piada de português contada em um palco italiano por José Vasconcelos no esplendor de seus oitenta e dois anos. O que fica: Ricardo Puccetti disse numa das mesas redondas do encontro que para ele o palhaço é uma reserva ecológica dos valores humanos. Poderíamos acrescentar, como variação disso, a imagem de uma colcha de retalhos de tudo aquilo que nos comove. Sem querer sair pela tangente, somos um pouco Chacovachi, um pouco Anônimo, um pouco Leris, um pouco Hilary. Aquilo que nos atinge acaba por nos definir. Porque somos feitos de pequenas porções de cada coisa que nos emociona. Obrigado, amigos do Teatro de Anônimo, pelo convite. Vida longa ao Anjos do Picadeiro! |