Agosto 2006

A Suprema Autoridade no Balaio da Anarquia

No espetáculo Jogando no Quintal há sempre “o problema da vez”. Alguma proposta cênica que, para nós, não está bem resolvida ou algum jogo que, com certa freqüência, passa a ser mal executado, obrigando os atores a rediscutí-lo e treiná-lo em sala.

Atualmente nossas discussões têm girado em torno da figura do juiz e da sua dificuldade em exercer a autoridade no meio de um jogo executado por palhaços.



Sempre lemos em artigos sobre o ofício do palhaço frases dizendo o palhaço é isso, o palhaço é aquilo. Sim, o palhaço é tudo, em termos. O palhaço é engraçado? Não necessariamente. O palhaço é inadequado? Sim e não. Qualquer pergunta desse tipo terá uma resposta relativa. Isso porque o palhaço só existe em relação, ele próprio é um ser relativo.

Dizem que o palhaço é por excelência, um transgressor. Isso é relativo? Sim. A transgressão é relativa. Há uma transgressão que é jogo, e uma transgressão surda, que   destrói possibilidades de relação. E isso foi o que andou se passando com a figura do árbitro nos últimos tempos. Uma certa dificuldade de apitar em um jogo onde cada atleta faz o que quer a qualquer custo.



O juíz do Jogando no Quintal é a autoridade máxima do jogo e deve, portanto, exercê-la a seu bel prazer, ainda que isso lhe custe algumas vaias e que a imagem de sua mãe fique levemente comprometida. Sua autoridade é uma brincadeira que cabe aos atletas comprá-la para que ela tenha alguma força de jogo. É preciso brincar de autoridade e brincar de submissão, acreditando nelas  acima de qualquer coisa.

Após cinco anos de trabalho, a intimidade com o espetáculo aliada à vontade de estar em cena fez com que os palhaços agissem como bem entendessem: hoje pegamos o microfone das mãos do árbitro, damos nossa opinião sobre tudo a todo o momento e puxamos o foco para nós quando o juiz está explicando as regras do jogo à platéia. Tipo Casa da Mãe Joana mesmo. Isso ainda acontece  porque a brincadeira, muitas vezes, foge ao nosso controle.



Felizmente, no mês de  agosto, voltamos a experimentar algo que há muito tempo não vivíamos: jogos em sala submetidos a novas arbitragens, o que nos deu a possibilidade de vivenciarmos  outros  juízes dentro do Jogando no Quintal.

Acreditamos que um treinamento como esse é construtivo, inclusive para aqueles que já apitam. Além de ser a oportunidade que os atuais árbitros do Jogando no Quintal têm de ver o seu trabalho sendo discutido por todos e de observar outras maneiras de se apitar o jogo, possibilita que grupo fique mais atento a essa relação.

Afinal: se o árbitro for de fato reconhecido como autoridade máxima do jogo, uma eventual desobediência surgirá com muito mais força. Uma punição como por exemplo, um cartão amarelo será muito mais emocionante e a platéia terá muito mais prazer de vaiá-lo, xingá-lo e até mesmo odiá-lo. Afinal  tem coisa mais gostosa do que vaiar um tirano, seja ele um político, um guarda de trânsito ou um árbitro de futebol? Tirania só é jogo com a devida obediência. Caberá a platéia o seu  julgamento.

Entre quatro paredes: Pequeno e Respeitável público!!!

Para o mês de agosto  Juliana Jardim, nossa orientadora, sugeriu que cada um dos palhaços preparasse um solo para ser apresentado em sala e discutido por todos.

Cada cena deveria ser criada com base em uma escala cênica fundamentada nos princípios orientais do JO-HA-KIU, onde toda e qualquer trajetória dramática vai do grito ao silêncio. Um grito que não precisa ser sonoro e um silêncio que, às vezes, pode ser escutado.

Poderíamos apresentar uma cena que já existisse ou preparar algo especialmente para a ocasião. Juliana pediu apenas que escolhêssemos algo que fosse verdadeiramente desafiador para nós.

Desafiadora já e a proposta em si. Somos o nosso pior público e também o melhor. Nossa platéia mais critica e ao mesmo tempo a mais generosa. O público que mais nos conhece e portanto o menos passível de se surpreender. Como nos colocar em situação de desafio perante um grupo de colegas que respeitamos tanto?

A cada dia de trabalho duas ou três cenas foram apresentadas. Na primeira semana, Blanche e Comendador. Na segunda semana, Rubra, Fonseca e Manjericão, na terceira, Manela e Emily; e continuaremos no mês de setembro até que tenhamos testemunhado as experiências de todo o grupo.



O aspecto mais revelador de cada palhaço e conseqüentemente de cada ator não reside propriamente no que ele diz , mas em como ele executa a ação. A maneira como cada um organiza o pensamento, a forma escolhida para representar uma idéia, de que jeito  o palhaço entra, como ele sai de cena, como ele se revela para o público, a relação que ele estabelece com o mesmo, as músicas das quais ele se serve (quando ele se serve), suas habilidades em cena, seu humor, seu figurino.

Cada um de nós é feito de um como. De como a gente se mostra. É o nosso como que nos dá o nosso quê. E descobrir isso é bastante emocionante. Por que alguns palhaços organizam verdadeiros números, com começo meio fim, enquanto outros optam por happenings extremamente ritualísticos, e outros, ainda, se servindo de qualquer coisa, como um mero pretexto para estar em cena,  se revelam com tanta verdade que são capazes de virar do avesso.

Estes solos foram pequenos presentes. E escutar o grupo inteiro em roda comentando minuciosamente uma única cena, um exercício maravilhoso de generosidade, para quem dá e para quem recebe.


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